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A excomunhão e a defesa da vida

Posted by Marcelo Dutra em segunda-feira, 16 março 2009

Vimos na semana passada mais um condenável ato de violência, com desdobramentos em sérias questões éticas. Uma criança de 9 anos, violentada sexualmente pelo próprio pai, teve a infelicidade de ficar grávida de gêmeos. Como a gravidez era de alto risco para a mãe e fruto de um ato de estupro, amparado pela lei que prevê a possibilidade de interrupção da gravidez nestes casos, uma equipe médica realizou aborto nos fetos.

O arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, não demorou a anunciar publicamente que pela lei do direito canônico estavam automaticamente excomungados a equipe médica que realizou o aborto, a criança-mãe de 9 anos de idade, a mãe da criança, que autorizou e outras pessoas que de alguma forma participaram do processo.

O direito à vida é um direito universal, reconhecido por todas as nações e religiões do mundo. Está entranhado em nossas consciências. Mas há situações específicas onde a lei admite a execução da morte de um ser humano. Estas situações variam de país a país. Em outras situações a lei não se pronuncia, como por exemplo em situações onde ficamos frente a frente com mais de uma pessoa exposta à possibilidade de morrer e temos de decidir qual delas vamos salvar e sabemos que só podemos salvar uma. Exemplos não faltam, sendo um dos mais conhecidos aquele relatado no livro e filme “A escolha de Sofia”.

No caso que estamos focando, o Arcebispo de Olinda e Recife, cargo já ocupado pelo saudoso Dom Hélder Câmara, anunciou e defendeu publicamente a condenação à excomunhão de todas as pessoas que participaram do processo de decisão e realização do aborto. O Brasil é um país laico, com total separação entre governo e Igreja. Nas relações entre povo e governo, prevalece portanto nossa Constituição. Pela nossa Carta Magna todos estão amparados e absolvidos.

A questão central neste caso é a consciência ética e moral. É saber se na consciência das pessoas existe algum sentimento de culpa pelo ocorrido. Se a consciência está limpa, não há que se preocupar com a condenação religiosa, por sinal sem unanimidade dentro da própria Igreja Católica. Não esqueçamos que a excomunhão foi uma pena aplicada desde a Idade Média pelos Tribunais de Inquisição, posteriormente renomeados para Congregação do Santo Ofício e depois renomeadas novamente para Congregação para a Doutrina da Fé, que teve como prefeito o cardeal Joseph Ratzinger, atual papa Bento XVI. Estes tribunais tinham o objetivo de defender a Igreja dos hereges e bruxas, conseguindo confissões através de torturas e condenando o acusado à morte após a confissão.

Que me desculpe o bispo Dom José Cardoso Sobrinho. Acho que errou, se precipitou e perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado. Poderia ter consultado antes outras autoridades da Igreja sobre a conveniência de se manifestar publicamente. Se a condenação é automática sua manifestação nada acescenta. Além disso desvia o foco do problema maior da violência causada pelo autor do estupro, que parece ter cometido um crime menor atenuado pelo “pecado maior” dos que cometeram o aborto.

6 Respostas to “A excomunhão e a defesa da vida”

  1. ritinha said

    marcelo querido,
    onde anda tu ? trabalhando muito?
    beijo da ritinha

  2. Dodora said

    Marcelo.
    Somente hoje tive a oportunidade de ler o que escreveu sobre o odioso crime em Recife.
    Quando estava no Brasil , li nos jornais e fiquei horrorizada, com a cumplicidade de autoridades religiosas, que foram capazes de excomungar um ato de piedade.
    A equipe medica nao tem que se preocupar com esta excomungacao.
    Sou catolica e acredito que Deus que e justo, acompanhou esta equipe e guiou a mao deste medico para salvar esta crianca nao somente de um futuro desastroso, mais tambem para que o mundo toma-se conhecimento do crime que este homem cometeu e com isto esta crianca foi salva duas vezes.
    Obrigada pelo seu artigo.
    Dodora

  3. Marcelo Dutra said

    Cara Dodora
    Em primeiro lugar agradeço sua visita e seu comentaério neste blog. É exatamente isto que desejo: suscitar reflexão e debate sobre temas importantes. Aqui todos estão certos, mesmo os que divergem da minha opinião, porque a intenção é expor idéias e opiniões. O problema debatido neste texto vai além de questões religiosas, pois é uma questão ética de grande significado e que provoca nossa própria consciência.
    Um grande abraço e volte sempre.
    Marcelo

  4. Dodora said

    Marcelo.
    Voce tem toda razao.
    Este problema que esta sendo debatido vai alem e muito alem de questoes religiosas.
    E questao moral e de conciencia do cidadao.
    Tambem concordo que as pessoas tem direito a ter diferente opinioes, e escrever o que pensa e sente.
    Nao podemos ocultar o fato, de que com toda a certeza tem pessoas com a opiniao completamente oposta a minha
    Mais se eu fosse a mae ,avo,tia ,madrinha ou simplesmente amiga da familia desta crianca, eu teria dado todo o apoio necessario para que esta equipe medica efetuace esta cirurgia.
    Esta menina precisa de terapia para ajuda-la emocionalmente, deste terrivel trauma e nao de criticas .
    Mais uma vez obrigada por escreve sobre o caso.
    Algunhas pessoas as vezes se omitem de dar a opiniao em casos como estes, por que tem medo de expressar a verdade.
    Dodora

  5. José Carlos said

    Prezado Senhor Marcelo,

    Sou areiabranquense da gema do ovo, porém desde os 8 anos de idade (1972) que resido em Parnamirim e ontem, através de um amigo conterrâneo fiquei sabendo de seu blog. Lendo este artigo, embora completamente atrazado, como católico e sabendo que você aceita comentários contrário, gostaria de expor o que acho e o que entendo da doutrina da minha igreja.

    Nenhuma denominação religiosa obriga ninguém a ser seu seguidor, concorda? porém para que possamos rezar o mesmo credo, no mínimo temos a obrigação de aceitar sua doutrina ou não. Nesse caso procuraremos outra denominação a qual me identifique.
    A Igreja Católica Apostólica Romana é DEFENSORA INCONDICIONAL DA VIDA, e sabemos que é comprovado cientificamente que no momento em que o óvulo é fecundado com o espermatozóide, alí já existe uma vida, indefesa é claro, e que precisa ser protegida. Sendo assim, como é que este ser deve sofrer uma pena muito maior que a do criminoso, pois sabemos que nossa legislação depois que o condenar, este passará ali uns tres anos, depois vai para um regime de pena progressiva e logo logo estará livre, e a outra parte, sem nenhuma culpa pagou com a vida.
    O que o acebispo falou foi isso. Aqueles que não comunga da Doutrina Católica, automaticamente se excomunga, ou não? se sou livre, logo, não sou obrigado a concordar com a doutrina de nenhuma religião, então cabe a min procurar uma que me satisfassa, não porque o Bispo falou, mas porque eu não comungo com o que ela pensa. Repito. A Igreja Católica não excomunga ninguém, nós é que nos afastamos dela na medida que não concordamos com ela.
    Outra coisa:
    A garota violentada não corria risco de vida, a mídia foi quem induziu a opinião pública para que acreditasse nisso.

    Obrigado e tenha uma boa noite.

    José Carlos de Sousa
    Filho de Joaquim de Sousa Rolim
    Parnamirim/RN.

  6. Marcelo Dutra said

    Caro José Carlos
    É um prazer e uma honra receber seu comentário. É exatamente isto que espero. discussões sobre o tema, de forma consciente e respeitosa. Aceitamos plenamente suas opiniões, embora as minhas nãO tenham mudado. como já disse em comentário anterior, o problema é mais de ética que de religião.
    Grande abraço
    Marcelo

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