De tudo um pouco

Divagações, opiniões, reflexões, livre-pensar…

Cotidiano

Posted by Marcelo Dutra em sábado, 18 fevereiro 2006

Em geral o cotidiano é a grande fonte de inspiração para poetas e escritores. Fernando Sabino soube aproveitar uma cena do cotidiano para escrever este texto primoroso. Talvez alguns de vocês já conheçam, mas envio prá todo mundo como um presente de início de ano. Boa leitura!!!!Inscrição na sua lápide:Aqui jaz Fernando Sabino. Nasceu homem. Morreu menino.A última crônica A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica. Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome. Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficarolhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e opratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim. São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam,discretos: “parabéns pra você, parabéns pra você…” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre n! um sorriso.Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso. Texto extraído do livro “A Companheira de Viagem”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1965, pág. 174
Publicado em 03/01/2006 23:10

2 Respostas to “Cotidiano”

  1. Marcelo Dutra said

    Oi, Marcelo
    Vc está desaparecido e a menina La Dutra também. Acho que ainda está com saudade da Laninha é assim mesmo.O carnaval da Pipa pifou , William está com problemas nn coluna.
    Tudo de bom prá vcs.
    abraços da Ritinha

    Comentario enviado por Ritinha às 14h29 em 09.02.2006

  2. Marcelo Dutra said

    Oi Marcelo,
    você iniciou o ano inspirado com esse texto lindo do Fernando Sabino.É aquela história de viver momentos que parecem tão simples mais completos de felicidade.
    tudo de bom prá vocês. Estamos pensando de passar o Carnaval na Pipa, eu, William e uma prima querida com o namorado. Ainda não sabemos se vamos passar em Natal, o plano é ir no sábado e voltar na quarta-feira.
    abraços da Ritinha

    Comentario enviado por Ritinha às 12h49 em 06.01.2006

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