A preposição a indica deslocamento rápido, provisório; para, permanência definitiva: Quem vai à praia vai passear; quem vai para o litoral vai morar lá.
10. “Entretanto, à medida em que o tempo vai passando, … ” (Pág. 47)
Não existe a expressão à medida em que , mas sim à medida que.
11. “O rapaz deu uma desculpa qualquer para não responder aquela pergunta.”(Pág. 25)
“Então ele sentiu uma imensa vontade de ir até lá, para ver se o silêncio conseguia responder suas perguntas.” (Pág. 161)
Quem responde responde a alguma coisa: ( responder àquela pergunta, responder a suas (ou às suas ) perguntas)
12. “O rapaz assistiu aquilo tudo fascinado.” (Pág. 207)
O verbo assistir no sentido de observar exige a preposição a. A expressão àquilo tudo equivale a a tudo aquilo.
13. “Mas tinha a espada em sua mão.” (Pág. 175)
“…Um cavaleiro todo vestido de negro, com um falcão em seu ombro esquerdo.” (Pág. 173)
Não se emprega o possessivo quando se trata de parte do corpo, qualidade do espírito ou peças do vestuário. Nesse caso, usa-se apenas o artigo: (na mão, no ombro).
14. “A menina ficava deslumbrada quando ele começava a lhe explicar que as ovelhas devem ser tosquiadas de trás para frente .” (Pág. 41)
“— Daqui para frente você vai sozinho — disse o Alquimista.” (Pág. 229)
A expressão correta é para a frente (sempre com a presença do artigo). Qualquer gramática elementar registra isso.
15. ” Ao invés de encontrar um homem santo, porém, o nosso herói entrou numa sala e viu uma atividade imensa…” (Pág. 58)
” Ao invés do aço ou da bala de fuzil, ele foi enforcado numa tamareira também morta.” (Pág. 178)
A locução ao invés de só se usa quando há idéias opostas; significa ao contrário de : A o invés de atacar, o time só joga na retranca. Quando as alternativas não são contrárias, utiliza-se em vez de, que quer dizer em lugar de: Em vez de jogar com dois atacantes, o time jogou apenas com um.
16. “Tinham-se passado onze meses e nove dias desde que ele havia pisado no continente africano.” (Pág. 95)
O verbo pisar é transitivo direto; rejeita, pois, a preposição em . (Corrija-se para: …havia pisado o continente )
“O chão estava coberto com os mais belos tapetes que já havia pisado , e do teto pendiam lustres de metal amarelo trabalhado, coberto de velas acessas .” (Pág. 167)
Aqui o verbo pisar foi empregado corretamente. O exemplo só perde o brilho devido ao erro que aparece na última palavra. É culpa do revisor.
17. “Quase ia falando do tesouro, mas resolveu ficar calado. Senão era bem capaz do árabe querer uma parte…” (Pág. 65)
Na linguagem escorreita não se usa capaz por provável (nem possível ), fato comum na comunicação descontraída, em portas de botequins: (…era bem provável que o árabe quisesse ).
18. “A África ficava a apenas algumas horas da Tarifa.” (Pág. 43)
“Ah, se eles soubessem que a apenas duas horas de barco existem tantas coisas dife- rentes.” (Pág. 71)
“Estamos há apenas duas horas da Espanha.” (Pág. 65 )
O advérbio apenas não deve ficar entre a preposição e o termo regido.Corrija-se para apenas a.
Não se deve dizer da Tarifa , como está no primeiro exemplo, e sim de Tarifa. Com exceção de Cairo, Rio de Janeiro e Porto, nomes de cidade não exigem artigo.
A presença da palavra há exercendo o papel de preposição, no terceiro exemplo, é um pecado inominável. Não é coisa de gente sóbria.
Desculpe-me de minha franqueza, meu prezado alquimista, mas quem redige dessa maneira não deve ter a menor consideração para com seus leitores.
19. ” Já não havia mais a esperança e a aventura…” (Pág. 79)
O uso simultâneo de já e mais constitui redundância. Elimine um dos dois termos, e a oração ficará irrepreensível.
“Se a gente não for como elas esperam ficar, chateadas.” (Pág. 40)
Tarefa ingrata é tentar descobrir o sentido dessa frase. Cabeça de mago e bumbum de criança sempre têm coisas estranhas, muito estranhas…
20. ” ‘O pipoqueiro’ , disse para si mesmo, sem completar a frase.” (Pág. 55)
Ora, se a frase não foi concluída, então a expressão deve terminar com reticências. Pois a função dos três pontos é exatamente indicar a omissão intencional de uma coisa que se devia ou podia dizer:
Correção: “O pipoqueiro…”
21. “Depois de vencidos os obstáculos, ele voltava de novo…” (Pág.113)
Obstáculos não se vencem; superam-se. Os desafios é que são vencidos.
22. “E que tanto os pastores, como os marinheiros, como os caixeiro-viajantes , sempre conheciam…” (Pág. 26)
Nas palavras compostas por substantivo + adjetivo, flexionam- se os dois elementos.
23. ” Assim que sentaram na única mesa existente, o Mercador de Cristais sorriu.” (Pág. 78)
Sentar na mesa deve ser muito engraçado mesmo. Os alquimistas, assim como os políticos, talvez tenham por hábito sentar na mesa. Pessoas normais, contudo, sentam-se à mesa.
24. “Naquela época não havia imprensa… Não havia jeito de todo mundo tomar conheci-mento da Alquimia.” (Pág. 133)
Devemos empregar todo o e toda a quando essas expressões equivalerem a o…inteiro e a…inteira: Não havia jeito de o mundo inteiro tomar conhecimento da Alquimia. Todo e toda (sem o artigo) significa qualquer. Toda gramática ensina isso.
25. “A visão logo sumiu, mas aquilo lhe deixou sobressaltado.” (Pág. 162)
Segundo mestre Aurélio, o verbo deixar no sentido de “fazer que fique (em certo estado ou condição); tornar é transitivo direto: Deixei-o alegre; A transação deixou-o rico”.
Na página 167, PC escreveu com rara sobriedade: “O que viu deixou -o extasiado”.
26. ” Para quê tanto dinheiro?” (Pág. 203)
O acento só se justificaria se o que estivesse no final da frase: “Tanto dinheiro para quê ?”.
27. “Mas de repente a vida me deu dinheiro suficiente, e eu tenho todo o tempo que preciso.” (Pág. 100)
Na linguagem apurada, o verbo precisar não abre mão da preposição de: (todo o tempo de que preciso ), a menos que ele venha antes de infinitivo.
Sem querer me parecer ranheta, acho que “de repente” ficaria bem entre vírgulas. É só uma questão de estilo…
28. “As pessoas preferem casar suas filhas com pipoqueiros do que com pastores.” (Pág. 49)
O correto é preferir uma coisa a outra , e nunca do que outra. (Corrija-se para: …pipoqueiros a casá-las com pastores .)
29. “Então os guerreiros viviam apenas o presente… e eles tinham que prestar atenção em muitas coisas.” (Pág. 164)
“No presente é que está o segredo; se você prestar atenção no presente, poderá melhorá-lo.” (Pág. 166)
Presta-se atenção a alguém ou a alguma coisa, e não em.
30. “Ninguém disse qualquer palavra enquanto o velho falava.” (Pág. 170)
“O camelos são traiçoeiros: andam milhares de passos, e não dão qualquer sinal de cansaço.” (Pág. 181)
Qualquer se usa nas orações declarativas afirmativas; nas negativas, usam-se nenhum e suas variações: ” Veio duma cidade qualquer , sua vida não foi boa nem má; foi como a dos homens comuns, a dos que não fizeram nenhum destino…” (Cecília Meireles)
31. “A velha pediu para que ele repetisse o juramento olhando para a imagem do Sagrado Coração de Jesus.” (38) (Correção: … pediu que ele …)
“… Pediu para lhe mostrar onde morava Fátima.” (Pág. 189 ) (Correção: Pediu que lhe mostrasse …)
Seguindo a gramática à risca, pedir para só se usa para solicitar licença, permissão ou autorização. Nos demais casos, usa-se pedir que : “Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro”. (Machado de Assis) / ” Pedira delicadamente que não se deixasse exposto à vista nada de valor”. (Carlos Drumond de Andrade).
32. “— Podemos chegar amanhã nas Pirâmides…” (Pág. 66)
“O rapaz se aproximou de uma mulher que havia chegado no poço…” (Pág. 150)
“Chegou na pequena igreja… quando já estava quase anoitecendo.” (Pág. 245)
Chegar em um lugar é regência dominante na fala brasileira e é encontradiça em alguns escritores medíocres ou sem muita expressão no meio literário, salvo raríssimas exceções.
Verbos de movimento exigem a , e não em: Chega-se sempre, e bem, a algum lugar. O único caso em que se pode empregar em com chegar é na referência a tempo: chegar em cima da hora .
É muito comum a expressão chegar em casa. Os escritores de boa nota, contudo, preferem chegar a casa: “Ao chegar a casa, Tavares encontrou a irmã preocupada”. (Dias Gomes)
33. “— Por que quis me ver? — disse o rapaz.” (Pág. 180)
“— E por que o deserto ia contar isto a um estranho, quando sabe que estamos há várias gerações aqui? — disse outro chefe tribal.” (Pág. 168)
Quando há uma pergunta, no discurso direto, o sensato é empregar um destes verbos: indagar, perguntar, interrogar…
34.”Mas as crianças sempre conseguem mexer com os animais sem que eles se assustem. Não sei porquê . ” (Pág. 36 ) (Correção: Não sei por quê. )
“E por que ?” (Pág. 56 ) (Correção : E por quê? )
“Até que um deles, o mais velho (e o mais temido), perguntou porque o cameleiro estava tão interessado em saber o futuro.” (Pág. 165 ) (Correção: …por que o cameleiro…)
“Não pergunte porquê ; não sei.” (Pág. 209 ) (Correção: Não pergunte por quê;… )
Entre muitas outras coisas, Paulo Coelho também não domina o uso dos porquês.
Veja como mestre Salomão Serebrenick elucida o caso sem magia nem bruxaria, no seu fabuloso livro 70 Segredos da Língua Portuguesa:
“A melhor norma prática a seguir é esta: só juntar os dois elementos num único caso — quando se tratar de uma resposta ou de uma explicação; nos demais casos, que constituem a grande maioria, separar os dois elementos.
Em final de frase, acentua-se o e: Já sei por quê. Também se acentua quando se trata de substantivo: É bom conhecer o porquê das coisas .”
35. “Eu lhe ensinarei como conseguir o tesouro escondido. Boa tarde .” (Pág. 51)
O verbo ensinar merece atenção muito especial. Quando se ensina algo a alguém, temos: O professor ensinou- lhe a lição. Quando se ensina alguém a fazer algo, temos: O professor ensinou- o a ler e escrever.
No segundo caso, temos um erro quase que insignificante. Mas não nos esqueçamos de que a língua é feita de detalhes: os cumprimentos bom-dia, boa-tarde e boa-noite só se constroem com hifem. É uma pena que certos alquimistas não estejam preocupados com essas coisas miúdas: o negócio deles é encontrar a pedra filosofal. Aposto que nem querem saber se hifem é variante de hífen. O vernáculo para eles está em último plano.
36. “Mas o comerciante finalmente chegou e mandou que ele tosquiasse quatro ovelhas.” (Pág. 25)
O verbo mandar na acepção de ordenar rege o pronome oblíquo o . No entanto, se o infinitivo for um verbo transitivo, como no caso em questão, é admissível também o pronome lhe. Segundo Celso Luft, também é correto construir: mandou-o (ou mandou-lhe) que tosquiasse as quatro ovelhas. Assim, PC teria quatro motivos para não pecar: