Obsolescência não é exatamente velhice. O dicionário Houaiss conceitua-a como “diminuição da vida útil e do valor de um bem, devido não a desgaste causado pelo uso, mas ao progresso técnico ou ao surgimento de produtos novos”. Você pode comprar um computador hoje. Mesmo sem usá-lo, em pouco tempo estará obsoleto, devido ao progresso técnico ou ao surgimento de computadores mais modernos. Ficar obsoleto significa mais ou menos não dar conta do recado. Uma máquina foi projetada para atender determinadas necessidades e demandas. Quando estas demandas e necessidades são universalmente ampliadas a máquina já não atende. Por exemplo, são demandas universais e atuais que as máquinas sejam eficientes, econômicas, consumam pouca energia e não agridam o meio ambiente, além obviamente de atender ao objetivo principal para para qual foi construída. Uma geladeira com 10 anos de idade consegue resfriar os alimentos à mesma temperatura que uma fabricada hoje, mas não atende aos requisitos de eficiência, economia, baixo consumo energético e não agressão ao meio ambiente.
A vida moderna impõe ao homem um ritmo frenético e um estilo de vida altamente competitivo. Percebe-se claramente que as pessoas têm cada vez mais tarefas a cumprir. O tempo torna-se escasso. As fábricas precisam funcionar dois ou três turnos ininterruptos para atender às crescentes demandas do consumismo. Precisamos fazer mais coisas e mais rapidamente. Nos esportes, quebram-se recordes continuamente, e a vitória de uns sobre outros se dá por frações de segundos. Meios de transporte super rápidos como aviões e trens-bala exigem que seus pilotos tomem decisões rápidas, sob pena de poderem causar grandes desastres. Não há tempo para reflexão. As decisões são fruto de muito treinamento e até mesmo por instinto.
O processo evolutivo dos seres vivos é muito lento. Passam-se centenas ou milhares de anos para um ser perder um órgão que não mais necessita ou adquirir um outro que precisa. O homem é um dos seres mais novos na escala evolutiva dos animais. Sua estrutura corporal e psicológica não está preparada para atender às necessidades modernas. Sua resistência física chegou ao limite. O esqueleto não mais suporta as pressões dos esportes e das competições. Vemos atletas machucados e operados todos os dias. A necessidade de dormir e de lazer não permite que trabalhe muitas horas seguidas.
A ciência busca e apresenta soluções. Roupas especiais, calçados especiais, próteses, implantes, dietas exclusivas com transgênicos, órgãos artificiais já fazem parte do nosso dia-a-dia. Máquinas fazem o trabalho que o homem fazia, com maior produtividade, sem erros, sem sono, sem fazer greve, sem benefícios sociais. Softwares fazem o trabalho que o cérebro não pode fazer. A cibernética toma conta de nossas vidas. O “Cyborg”, antes ficção científica, virou realidade. A biotecnologia é um dos ramos da ciência que mais se expande. Enquanto o corpo humano tenta seguir seu ciclo de vida natural, a ciência busca formas de combater o envelhecimento e o desgaste provocado pelo tempo. É preciso viver mais, para produzir mais, para consumir mais, para ganhar mais dinheiro, para obter mais vitórias, para produzir mais ciência…para viver mais….
Os conflitos éticos são inevitáveis. Aborto para organismos com “defeito”? Pesquisas com embriôes e células-tronco? Vencer a qualquer custo? Trabalhar 14, 15 horas por dia, afastado da família, para atingir o sucesso empresarial?
Não sei qual será o futuro. Qualquer prognóstico tende a ser conservador. Mas o homem em sua essência, como Homo Sapiens, já está em pleno processo de extinção. Não mais dá conta do recado. Ficou obsoleto.
Abraços…Marcelo
