Vimos na semana passada mais um condenável ato de violência, com desdobramentos em sérias questões éticas. Uma criança de 9 anos, violentada sexualmente pelo próprio pai, teve a infelicidade de ficar grávida de gêmeos. Como a gravidez era de alto risco para a mãe e fruto de um ato de estupro, amparado pela lei que prevê a possibilidade de interrupção da gravidez nestes casos, uma equipe médica realizou aborto nos fetos.
O arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, não demorou a anunciar publicamente que pela lei do direito canônico estavam automaticamente excomungados a equipe médica que realizou o aborto, a criança-mãe de 9 anos de idade, a mãe da criança, que autorizou e outras pessoas que de alguma forma participaram do processo.
O direito à vida é um direito universal, reconhecido por todas as nações e religiões do mundo. Está entranhado em nossas consciências. Mas há situações específicas onde a lei admite a execução da morte de um ser humano. Estas situações variam de país a país. Em outras situações a lei não se pronuncia, como por exemplo em situações onde ficamos frente a frente com mais de uma pessoa exposta à possibilidade de morrer e temos de decidir qual delas vamos salvar e sabemos que só podemos salvar uma. Exemplos não faltam, sendo um dos mais conhecidos aquele relatado no livro e filme “A escolha de Sofia”.
No caso que estamos focando, o Arcebispo de Olinda e Recife, cargo já ocupado pelo saudoso Dom Hélder Câmara, anunciou e defendeu publicamente a condenação à excomunhão de todas as pessoas que participaram do processo de decisão e realização do aborto. O Brasil é um país laico, com total separação entre governo e Igreja. Nas relações entre povo e governo, prevalece portanto nossa Constituição. Pela nossa Carta Magna todos estão amparados e absolvidos.
A questão central neste caso é a consciência ética e moral. É saber se na consciência das pessoas existe algum sentimento de culpa pelo ocorrido. Se a consciência está limpa, não há que se preocupar com a condenação religiosa, por sinal sem unanimidade dentro da própria Igreja Católica. Não esqueçamos que a excomunhão foi uma pena aplicada desde a Idade Média pelos Tribunais de Inquisição, posteriormente renomeados para Congregação do Santo Ofício e depois renomeadas novamente para Congregação para a Doutrina da Fé, que teve como prefeito o cardeal Joseph Ratzinger, atual papa Bento XVI. Estes tribunais tinham o objetivo de defender a Igreja dos hereges e bruxas, conseguindo confissões através de torturas e condenando o acusado à morte após a confissão.
Que me desculpe o bispo Dom José Cardoso Sobrinho. Acho que errou, se precipitou e perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado. Poderia ter consultado antes outras autoridades da Igreja sobre a conveniência de se manifestar publicamente. Se a condenação é automática sua manifestação nada acescenta. Além disso desvia o foco do problema maior da violência causada pelo autor do estupro, que parece ter cometido um crime menor atenuado pelo “pecado maior” dos que cometeram o aborto.

Dia 19 de dezembro estaremos comemorando as bodas de Jade dos meus pais. 60 anos de casamento, vividos intensamente e que resultou em muitos frutos. Além dos filhos, netos e bisnetos, adicionados com genros e noras, ainda colhemos o que eles plantaram: exemplo de vida, respeito mútuo e sólidos valores morais. A passagem do tempo deixou suas marcas. A redução do vigor físico e o aparecimento de algumas mazelas próprias da idade. Mas não tirou a essência nem a vontade de viver. Continuam lúcidos e saudáveis. Andam com as própias pernas. Têm vida social e convivem e interagem com os familiares e os muitos amigos que continuam cultivando. E acima de tudo têm projetos de vida.